quinta-feira, 31 de janeiro de 2019

Marrakesh 2019, uma lança em África. Operação 21!

A maratona do ponto de vista de um atleta de baixa competição!
Complexa esta décima segunda aventura, mais concretamente, até chegar a Marrakesh. Vou tentar pôr isto de forma cronológica, para não me perder na escrita.

Com a intenção de arranjar uma prova para participar no início de 2019, surge Marrakesh Marathon 2019, no horizonte. Partilhei a ideia ao pessoal, cada um iria decidir a seu tempo. Da minha parte estava decidido a embarcar na aventura. Pouco tempo depois de vir da Holanda, reservei viagem e fiz a inscrição. A antecipação  dos atos faz com que as coisas fiquem relativamente mais baratas. Depois corremos o risco de perder tudo, mas é isso mesmo, é um risco. 

Como é hábito, começo um plano de treinos, com 21 km em ritmo moderado. Desta vez não foi exceção. Na segunda semana do plano, um treino técnico, com intensidade à mistura, fez com que uma moinha antiga, se transformasse em incómodo a sério. Já andava a adiar a ida a exames há algumas maratonas. Achei que estava na hora de tentar perceber o que se estava a passar. Tomei a decisão de suspender o plano de treinos, e consequentemente a maratona em Marrocos. Mais uma vez comuniquei à maralha do Norte. Como ninguém tinha feito ainda nenhum investimento, ficou reservado para uma outra oportunidade.

Vou ter que fazer um flashback.

Depois de ter feito duas ou três maratonas, marquei uma consulta num ortopedista, no HP de Loulé. Ao entrar no consultório, qual a primeira pergunta do médico? Então do que é que se queixa? De nada, respondi eu. Então veio cá fazer o quê?
Depois de resumir um pouco a história das corridas, disse-lhe que estava preocupado porque estava sempre a ser confrontado com pessoas que tomam coisas antes, durante, e depois dos treinos, e eu não tomo nada. Posso estar à fazer alguma coisa mal. Posso estar à prejudicar o esqueleto.
O médico fez umas perguntas de rotina. Quando faz treinos mais intensos, mais longos recupera bem? Não fica com nenhuma dor que o incomode, faz os treinos de recuperação, e tem vontade de continuar a treinar? 
Só não tenho vontade de treinar a maior parte das vezes, por causa da preguiça, do cansaço não!
Faz uma alimentação equilibrada?
Sim, como quase tudo. Só não como carne de porco, de vaca, de borrego, de cabrito, migas, papas de milho, natas… E vá, não gosto muito de doces… Quanto ao resto, como tudo!!!
E bebidas?
Café, água, cerveja e vinho… Vá, se for bom, champanhe!!!
Volte cá quando tiver alguma queixa, não lhe posso fazer nada…
Quando entrei agora no consultório, no início de Dezembro, uns anos depois da primeira consulta. Qual foi a reação do médico? 
Afinal o maratonista sempre se lesionou… 
Bem disposto este profissional da medicina!!! (Profissional impecável)
Resumindo, fez despiste com movimentos físicos, disse-me que em princípio não tinha nada nos ossos, mas para descargo de consciência e poder apurar, ia fazer um RX à bacia, e uma TAC à coluna. Deu-me permissão para continuar a correr, pediu para reduzir ritmos de forma que não me incomodasse, e também procurar os pisos menos agressivos ao ossos, terra batida por exemplo.
Como as salas dos exames estavam em remodelação no Hospital, tive que marcar na clínica em Faro. Isso só veio atrasar o processo. Fiquei aborrecido? Não!  Estava desejando saber os resultados, mas só se fossem positivos. Se não fossem não estava…. Acho que somos todos assim…

Com a organização da São Silvestre às costas, pouco tempo sobrou para treinos em Dezembro. Marrakesh já tinha desaparecido do horizonte. Não deixei de treinar, distâncias curtas, e sem intensidade, quando podia, ia passear as sapatilhas. No início de Dezembro ainda fiz dois “longos“ de 21 km em ritmo médico. Na segunda quinzena, só deu São Silvestre… E não é que valeu a pena a dedicação. Muito, muito, muito a pena!

No último dia do ano, tenho acesso aos exames, e respectivos relatórios. Acho que li três ou quatro vezes, para não haver enganos. Tal como o médico tinha dito, os ossos estavam conformes. A dor, que entretanto estava calminha, normal face à ausência de treinos exigentes, era de uma qualquer articulação. Situação  que o médico me explicou mais detalhadamente na consulta seguinte. A sacroíliaca esquerda. Tanto pode ser do simples “uso”, o uso na corrida, como de uma má postura num comportamento do dia a dia. Depois faz com que uma articulação fique mais sobrecarregada do que a outra, logo, inflamação!

Às três da tarde do dia 31 decidi ir treinar, uma hora e pouco de corrida, 16 km, depois tomava a decisão de ativar ou não a aventura africana, operação 21, como lhe vim a chamar mais tarde. O treino foi mais para pensar nas possibilidades que haviam de preparar convenientemente uma maratona sub 3:00, em 21 dias. A prova era dia 27, mas a última semana não conta, é de descanso. Decidi que tinha que fazer pelo menos dois treinos longos, 30km e 35km, respectivamente. E dois de 21 km. Mais os restantes de recuperação e técnicos como é óbvio. Para estes quatro treinos, só havia três fins de semana… Toca a improvisar. Vou fazer do dia 1 de Janeiro, terça-feira, um fim de semana. Era a solução possível. Iam ser 21 dias onde tinha que correr tudo bem.

Com noite de ano novo a acabar às cinco da manhã. Tinha tudo para a coisa começar bem… Às 12:30 horas em ponto, estava sentado à mesa do almoço de dia de Ano Novo, com 30 km feitos e banho tomado, já agora. Estava também com muitas dúvidas, como é  que o corpo ia reagir à carga que aí vinha… 
No dia seguinte, por questões de agenda e logística, falo nessa real hipótese pela primeira vez. Como foi possível articular as coisas, essa possibilidade, já não era possibilidade, era já uma certeza. Não havia volta, a máquina estava ligada. Era irreversível.
Os dias  que se seguiram foram em contra relógio, o tempo não pára… Para lá da corrida haviam outras coisas na agenda. Devia um fim de semana fora, aos filhotes, desde o início de Dezembro. Se deves… Paga!!! Paga é como quem diz, tenho sérias dúvidas de quem é que fica mais a ganhar…

Tinha também agendado o último treino no norte do país.  21 km em Viana do Castelo, Meia Maratona Manuela Machado. Fiz estágio na invicta, grande beijinho à Dora e forte abraço ao Carlos. Forte convívio Perneta, em Viana. É uma prova para anotar no calendário. A ideia inicial era marcar o passo ao Carlos, mas limitações físicas do Perneta Mor, impediram essa possibilidade. Acabei por fazer um treino rápido, sem gastar energias desnecessárias. Correu muito bem… 

E finalmente segunda-feira, o primeiro  dia de descanso do plano, dia 21 de Janeiro, o dia mais importante do ano… Ah pois é,  eu tenho o dia mais importante do ano, duas vezes… 
Está de parabéns a minha princesa, 10º  aniversário. Coexistir com ela, é uma experiência sem paralelo, é um privilégio inexplicável. Merece o mundo esta menina!!!

Não falhei um único treino, nos 21 dias. Treinei fora de contexto, fora de horas, sem horas, com temperaturas negativas, com temperaturas positivas, sem temperaturas. Não falhei um único compromisso profissional ou pessoal. Foi fácil?! Aaahhh, isso agora interessa pouco ou nada….

Chego a Marrakesh com dois objetivos, correr abaixo das três horas, e se possível, fazer 2:55. Abaixo das três horas, pelo plano de treinos e objetivo pessoal, as 2:55, para garantir entrada livre em Berlim 2020, se assim entender participar. Nas inscrições deste ano, para 2020, com a minha idade, e 2:55, dispenso sorteio. Ainda não faço ideia se me apetece ir… Falta muito tempo… Mas se me apetecer… Tenho free pass para me inscrever!!!
Mesquita Koutobia

Antes de escrever sobre a maratona de Marrakesh em si, vou deixar uma breve  opinião sobre a cidade africana 
Já agora, uma observação que me parece relevante logo à partida. Quando cheguei a Helsinquia o ano passado, não estava à espera de uma cidade desequilibrada, nem com lacunas visíveis a cada esquina. Os finlandeses não me surpreenderam, as coisas por lá, tem todas um lugar… Quando cheguei a Marrakesh, não estava à espera de encontrar a organização nórdica… Acho que já me fiz entender, em Marrocos, sê marroquino!!!

Grandes discrepâncias sociais, a pobreza e a riqueza, vivem a um muro de distância. Mas isso não afeta a maioria das pessoas, desenvolveram uma capacidade de viverem dentro das suas possibilidades, com genuína alegria. Pedem por tudo e por nada, negoceiam mesmo tudo, mas são muito simpáticos no geral. Marrakesh, está habituada receber, isso é  também o ganha pão deles. Todas as ruas são ruas de comércio, serviços, etc. Os cheiros intensos das especiarias, misturado com centenas de outros aromas não filtrados. A poluição é visível a olho nu, muito óleo e gasóleo no pavimento, derivado de um parque automóvel muito degradado.

E o trânsito?! O trânsito em hora de ponta,  é caótico. Automóveis, autocarros, motorizadas, motos, bicicletas, charretes, a pé… É a anarquia completa!!!

Os táxis… Na foto que pus a ilustrar, já a viagem para o aeroporto estava a terminar,  e o taxímetro dizia “libre". Depois o preço é a olho… Durante a viagem, em conversa com o taxista perguntei-lhe a opinião dele sobre a cidade e sobre o trânsito na mesma. Ele para mim. Aqui a regra, é não haver regras!!! Depois perguntou -me o que tinha vindo fazer, e se era espanhol. Vim correr a maratona e não sou espanhol, sou português. Ele… Ah pois, isso é tudo a mesma coisa!!! Você fala bem francês não é normal nos turistas espanhóis (!!!)… Coisas destas é que a minha professora de francês do 11º ano devia ouvir… Bom, ele também não sabe distinguir Portugal de Espanha… Não se pode ter tudo… Mas não deixa de ser uma opinião!!! (Luis, o Ibérico). 
Fiquei um pouco aborrecido por causa da questão de não haver consumo de bebidas alcoólicas com a naturalidade que estamos habituados, é  uma questão religiosa. Há que manter o respeito.

Mas tenho que confessar, se houvesse um sítio  que servisse, uma cerveja fresca, eu tinha lá ido beber duas ou três acompanhadas com azeitonas bem temperadas de especiarias. Para mim às refeições é vinho,  também ficaria contente se isso fosse possível…

Onde fica? Como se chama?  Não fica muito longe da Koutobia, a mesquita mais importante  de Marrakesh, onde só entram muçulmanos. Kosybar… É  nome do espaço em questão. Não precisam de agradecer!!!


 Por falar em cervejas, vou ter que partilhar um dos segredos do sucesso deste atleta amador. 
Área de serviço de Alcácer do Sal, duas horas  antes da minha primeira meia maratona. Grandes dúvidas entre os estreantes de qual seria o melhor pequeno almoço pré prova… Para mim foi fácil de decidir, na bagagem iam sumos/refrigerantes e uma geleira de cervejas, para depois da prova. Eu não bebo sumos/refrigerantes, com a exceção da Coca-Cola. Não é tarde nem é cedo. O pequeno almoço vai ser uma cerveja com uma sandes com um bife de peru. Como a meia maratona  correu bem…2:19:38, nunca mais perdi o hábito, com a nuance de poder ser também com sandes de queijo, mais fácil de arranjar em qualquer lado.
No outro dia em Viana, fomos tomar o pequeno almoço a uma pastelaria que não tinha bebidas alcoólicas. Eu quase que vi preocupação no olhar do Carlos… Ele, “Então mas não há cerveja para o teu pequeno almoço, então mas…” . Pouco depois o resto da malta, então esse pequeno almoço, a cervejinha e tal… A sério!!!
Pessoal, eu quando estou sozinho, nem me lembro dessa situação, peço desculpa… Mais de metade das maratonas que fiz, nem faço ideia do que comi. É o que houver no Hotel. O segredo, é não haver segredo!!!
Já viram as figuras que eu faço nos hotéis, com os atletas todos concentrados nas quantidades certas do que vão ingerir e tal, e eu…

A foto ilustra o pequeno almoço de Barcelona, Roma, Amsterdão, e de um treino com o pessoal lá  de cima. Onde houve um diálogo caricato entre mim e o barman.
Quero uma sandes de queijo… E… Tem Sumol? Tenho, respondeu. Então fique com ele e traga-me uma cerveja!!! Nunca mais lá voltámos… 


Oito e meia da manhã, Marrakesh, tempo de enfrentar mais uma besta, de frente, com os objetivos que relatei anteriormente. A prova tem um percurso muito equilibrado, e  a temperatura estava boa para corrida.
O equipamento do CAL, não tem só as cores da bandeira portuguesa, como tem as da bandeira marroquina, vermelho e verde. E não é que isso teve as suas particularidades ao longo da prova. Os miúdos mais pequenos no público, assim que me viam aproximar, começavam a gritar Marrocos, Marrocos, devo ter dado mais de 200 high five ao longo da prova… (Luis, o marroquino). Para o público europeu a assistir à maratona ao longo do percurso… Portugal, Ronaldo, Ronaldo… (Luis, o do país do Ronaldo). É sem dúvida o equipamento mais bonito do mundo, e como dizem em Lamas, e de Lourosa também…
Início de  prova nas calmas, de trás para a frente, como mandam as regras da prudência, quando dei por isso tinham passado 10 km. O nevoeiro e o frio não criaram qualquer adversidade, ajudaram a manter os sentidos alerta. Por volta do km 18 alcancei um grupo de seis ou sete elementos. A “perseguição” tinha começado ao km 14, quatrocentos metros, com ritmos idênticos, levam o seu tempo a recuperar. Fiquei no grupo dois ou três km. Comecei a achar que estava a mastigar passo, decidi ir à minha vida, por volta do km 22 saí. E é aqui que começa uma nova corrida. No grupo ia uma rapariga, que decidiu apanhar a boleia. Fez três ou quatro km atrás de mim sem dirigir uma palavra. Pouco tempo depois, começou a ficar para trás gradualmente… Olhei e perguntei. O que é que se passa?
Os km estão à sair rápidos demais para as minhas possibilidades, respondeu.
Qual é o teu objetivo? Voltei a perguntar. E ela explicou…
Tenho o recorde pessoal de 2:56, estive sem poder treinar à vontade em Novembro e Dezembro… (fez-me lembrar alguém…) Gostava de fazer 2:55, mas não estou em condições físicas disso. Ainda por cima os últimos dez km são mais a subir… Era a sua terceira participação em Marrakesh. É marroquina, mas vive na Dinamarca, com o marido, e três filhotes.
Fiquei um pouco em silêncio e disse-lhe.  Como não tenho objetivos de recorde pessoal, vou marcar o ritmo que tu precisas. Não te deixo ficar para trás. Tu escolhes o ritmo, mas eu marco esse ritmo à minha maneira. A partir dali facilitou e muito a minha prova, com a “preocupação”, abstraí-me da minha maratona, e isso foi muito bom. 
Gostava de ter gravado o último km em áudio… “Eu vou chorar tanto”, “gritos de conquista”, “gritos”, “a minha treinadora não vai acreditar”,  “gritos”, etc, etc, etc…”
Já agora, não ficou nas 2:55 que queria. Fez 2:52, tal como eu, menos quatro (!!!) minutos do que o recorde pessoal. Foi como lhe tinha dito, eu marcava o passo dela… À minha maneira!!!


Não me lembro de ter visto tanto contentamento ao cortar uma meta de uma maratona. Tive alguma dificuldade em tirar a fotografia da praxe. Não deixava de agradecer e olhar para o relógio. Depois na foto, ainda fica apontar a dizer que a culpa é minha… Apontar é feio!!!

Se tenho seguido sozinho, possivelmente, tinha feito menos um minuto ou dois. Ela possivelmente  esmorecia e não chegava ao recorde pessoal. Foi trabalho de equipa. Poderia ter sido diferente,  mas tenho a certeza que não tinha sido a mesma coisa. Tenho também a certeza, que se fosse ao contrário, ela fazia o mesmo por mim. A isto chama-se corrida amadora no seu melhor. Ficámos os dois a ganhar. Como já tenho dito, estes é que são os meus “pódios” preferidos.

Boas corridas.













sábado, 5 de janeiro de 2019

3ª São Silvestre A-do-Neves, a festa chegou à corrida.

A maratona do ponto de vista de um atleta de baixa competição!

Eis que está praticamente arrumada a 3ª São Silvestre A-do-Neves. Podia ter corrido melhor? Podia! Isso não quer dizer que não tenha corrido muito, muito bem.
A 2ª edição tinha deixado a bitola um pouco alta, com o destaque à cabeça da participação de muita gente, inclusive de meia centena (!!!) de familiares do norte.

Cedo percebemos o aumento em relação ao ano anterior, face às muitas pessoas a perguntar muitos meses antes, se iria haver prova , e se seria dentro dos mesmos moldes. Fomos dizendo que em princípio haveria. Carecia da confirmação das principais entidades do concelho, da Câmara Municipal de Almodôvar, e no nosso caso da Junta de Freguesia do Rosário. Da minha parte havia disponibilidade para ficar à frente da organização, com o meu irmão no braço direito e esquerdo. (Grande trabalho do Bruno durante a tarde da prova, irrepreensível...)

E é agora aqui que vou fazer dois parêntesis.

(Uma das motivações de criar o blogue, para lá de estar farto de aturar o Carlos a chagar-me a cabeça, foi deixar para memória futura, para os meus filhos, se assim o entenderem, ir consultar um pouco da história do pai. E a São Silvestre A-do-Neves veio dar-me a possibilidade de lhes explicar o que eu fazia quando era mais novo, de uma forma mais “visual". Muito antes das corridas.)

(A sala onde se faz hoje o convívio da São Silvestre A-do-Neves, foi feita de raiz pela associação do Centro Cultural e Recreativo de A-do-Neves. Numa primeira fase com o meu irmão a presidir, e eu ao lado dele, numa segunda, comigo na presidência e ele ao meu lado. Durante esse tempo tivemos a ajuda das entidades municipais, e de dezenas de amigos a trabalhar connosco  voluntariamente, com muito, muito empenho. Fizemos festas de Verão, bailes, quermesses, torneios, etc, etc… O nosso ganho? Acho que está à vista! Uma sala não muito grande, mas muito bem arrumada. E está ao serviço da comunidade, de borla, é só usufruir.)

Eu fiz estes dois parêntesis para poder agora deixar aqui a resposta, às muitas perguntas que me fizeram este ano durante a prova. Porquê, porquê???

Todos sabemos o que é o estado social na sua essência, embora nem sempre o vejamos na sua plenitude, muitas vezes, muito “insocial”.

Eu entendo que também devem de existir “pessoas sociais”. Se temos capacidade, temos que a utilizar em prol dos que são menos capacitados, ou por circunstância da faixa etária. É bonito de dizer que  as crianças são o melhor do mundo, que os idosos são a nossa história,  e depois ficarmos no cadeirão individual e capitalista do dia a dia. Eu nasci no associativismo. Na escola liderei a associação de estudantes (adorava as reuniões do conselho pedagógico, vá, só me deixavam ficar durante a explicação do plano de atividades… Tá mal!!!), continuei cá fora conforme relatado anteriormente. A São Silvestre A-do-Neves, foi só uma continuação. Mas que fica mais fácil explicar aos meus filhos o meu passado, lá isso fica. Depois de ver as caras de satisfação nos rostos dos participantes, acho que está respondido à questão… Mas porquê??? Bebés, infantis, pré-adolescentes, adolescentes, adultos, idosos, até tivemos pessoal do Algarve…



Depois deste contexto histórico, convém não esquecer de que foi um dia inesquecível. A A-do-Neves nunca mais vai sair do mapa. As pessoas da terra, da freguesia, do concelho, ficaram orgulhosas de serem quem são, esse é o meu lucro. Se tivermos essa abertura todos ficamos a ganhar. Pessoalmente,  tanto bebo descansado uma cerveja em Amsterdão, com os meus filhos, depois de uma maratona, como trabalho afincadamente para uma prova não oficial no Alentejo. Nunca deixo ninguém para trás, inclusive onde nasci, Faro, freguesia da Sé…. Brincadeirinha… Não é por estar a  A-do-Neves em causa que vou deixar de dizer que adoro o Algarve, a minha região natal. Mas vá, e sem tirar os holofotes do que está em causa, e como disse antes, a A-do-Neves nunca mais vai sair do mapa!!!

Não queria escrever muito, mas então…

Clube Atletismo de Lamas…

Ficou registado em vídeos, fotos, publicações, etc, etc. Mas nem que eu queira, consigo explicar a gratidão que sinto. Um ano até podia ter explicação, agora dois anos, com mais gente ainda… Não faço ideia se vai ou não haver 4ª edição, mas ninguém consegue apagar da história estas duas últimas edições. Isto já ninguém me tira. Quase cem pessoas fazerem mil kms num dia, dois anos seguidos… De certeza que deve haver parecido, isso pouco interessa, mas diz muito, ou diz tudo, de eu fazer parte desta família. Jamais conseguirei agradecer. Não tenho palavras, foi o que aconteceu ao almoço pré prova, é o mesmo agora, não tenho palavras… Eles são mesmo os maiores, mas de longe!!!


Fica um agradecimento pessoal a todas as pessoas que participaram, de forma direta ou indireta. De certeza que, se for possível, entre todos, vamos fazer outra edição. Muito, muito, muito obrigado!
…Já ando a espalhar panfletos mais a sul… Raios me partam se no próximo ano não temos mais pessoas do Algarve!!!

Boas corridas!


quinta-feira, 25 de outubro de 2018

TCS Amsterdam Marathon 2018, que bela viagem!!!

A maratona do ponto de vista de um atleta de baixa competição!

Ainda estou um pouco incrédulo com esta prova… Pode ser que a escrita, me ajude a clarificar coisas.

A maratona de Amsterdão, dia 21 de Outubro 2018, começou no início de Dezembro de 2017. Tinha ido  a sorteio para Berlim no fim de Outubro, e não fui contemplado. Antes de saber o resultado já  tinha uma  alternativa em carteira, TCS Amsterdam Marathon 2018. À priori, quer uma quer outra prova, teriam a companhia do Eduardo e da Bárbara. Sugeri-lhe a aventura, e eles gostaram da ideia. Haveria uma parte que era a maratona e a outra, a possibilidade de ficar a conhecer uma capital europeia. Por altura de Helsínquia 2018 em Maio, já estava tudo mais do que reservado e marcado. Mas uma coisa é a programação logística, outra são as variantes humanas que temos de ter em conta.

Tenho na minha posse uma ideia concreta do que é cumprir um plano de treinos durante o Verão, já o cumpri por causa das 24 horas a correr em Vale de Cambra em 2016 e 2017. Se juntar as altas temperaturas, ao maior volume de trabalho, torna-se numa missão quase impossível.

Ao contrário do ano anterior, não parei em Junho. Mas não deixei de descansar da corrida. Não fiz um único treino esforçado, só manutenção. Abri as hostilidades em Peniche, na corrida das fogueiras. 15 km a saírem rápidos demais para a altura do ano (3:55 km), sem fazer grande coisa por isso. Se calhar foi porque gostei muito da prova. Cinco estrelas!

Com um Julho frio para a época, foi fácil arranjar alguns treinos regulares. Coisa que o mês a seguir já não permitiu. Cumprir um plano de treinos no Agosto deste ano, só quem estava de férias, ou consegue treinar de manhã cedo antes de ir trabalhar, não é o meu caso. De resto, é impossível. “Desisti" do plano durante este período. Quando podia... Fazia kms… Só isso, fazia kms. Quando arquiteto um plano de treinos, tem que obedecer a algumas regras. Por exemplo, não faço um treino técnico num dia, sabendo que é impossível fazer recuperação no dia a seguir. O que faço quando não tenho certezas do calendário? Foi o que disse antes, faço kms… Só para manter a máquina ligada.

Acontecesse o que acontecesse na Holanda, o ano de corridas já estava composto. Apresentava no portfólio, Barcelona 2018 e Helsínquia 2018. Isso foi bom, tirava alguma carga negativa que pudesse aparecer.

Controlamos a  logística, mas não controlamos a parte humana. Ah pois é!!!

Um dos passageiros desta viagem esteve até à última da hora à espera do “visto", para voar. E porque esta foi também a maratona deles, vá lá um pouco da história da coisa. Sim, porque isto não é só corrida!

O Eduardo teve um ano um pouco atribulado ao nível de saúde. O surgimento de pneumotoraxs fez com que tivéssemos que dividir algumas alturas  do ano entre as enfermarias do Hospital de Beja e do Hospital de Santa Marta em Lisboa. Foram  períodos conturbados. É  muito difícil ver um filho numa cama de hospital sem que possamos fazer nada. Na altura de algum desespero de lidar com os timings de espera pelas evoluções e soluções de todo o processo, era ele que tranquilizava os pais. Incrível a forma de lidar com adversidades. Como cheguei a escrever na altura, foi utilizar as duas palavras, pelo menos para mim, mais importantes numa maratona. Resistência e resiliência, só que num outro contexto.
Foi uma enorme lição de vida, e de quem está tão, tão perto de mim. Juntando todos os episódios ao longo do ano letivo, fez com que ele perdesse dois meses (!!!) de aulas. Não desarmou, com a capacidade de trabalho que lhe é conhecida, conseguiu manter as notas no nível quadro de honra, nível que tem desde o primeiro ano. Dia 20 de Agosto a última cirurgia e a autorização médica para poder viajar de avião. Foi mesmo no limite do período de espera necessário. Por tudo e mais alguma coisa, ninguém merecia mais do que ele ir a Amsterdão. Amsterdão ou onde ele quisesse ir!

Quem merecia ir a seguir? Pois claro, a princesa Bárbara. Felizmente a saúde dela não lhe trouxe nenhuma contrariedade ao longo do ano. Ao nível escolar a menina é copy paste do irmão. Trabalho e dedicação garantido no que for que ela participe. Tem uma energia inesgotável. É uma menina “Tornado". Não deixa ninguém indiferente por onde passa. Ou pelos desempenhos, ou porque é bonita, ou muito bonita, ou tem a risca ao meio, ou tem a risca ao lado, ou o tom de pele, ou o cabelo, ou os olhos, ou tudo e mais alguma coisa!!! Ainda é muito pequena, utilizando linguagem meteorológica, tem tudo para ser um F5. No sentido metafórico claro, nada a ver com destruição, é o carinho em pessoa. Se bem que tenho que reconhecer, herdou uma coisa do pai. Quando são pessoas fora do círculo, tem uma “simpatia estranha”. O pai já corrigiu um pouco esse “feitio”, ela seguirá o seu caminho. Tal como disse do Eduardo, esta menina merece ir onde ela quiser.

E pronto, tinha que escrever sobre estes companheiros de viagem, como disse, esta era também a maratona deles. E reitero, isto não é só corrida!

E Setembro tudo mudou. Trouxe acalmia à alcateia. Umas retemperadoras férias, tempo e temperaturas para treinos. Ainda ia a tempo de preparar minimamente os ossos para o que aí vinha.

O tentar concentrar o máximo possível o treino em Setembro, trouxe algum cansaço aos membros inferiores, sentia as pernas pesadas. Consequentemente dúvidas, se não estaria a sobrecarregar, se não devia aliviar, se isto, se aquilo, se o raio que me parta!!! A ideia principal que corria a mente era… “Ainda tens o princípio de Outubro para “sacudir” esse peso das pernas". Assim aconteceu, a primeira semana de Outubro só  recuperação ativa. Com o epílogo a ser a meia- maratona de Lisboa em ritmo de treino rápido. Sem ter autorização do “treinador” para forçar nadinha. Muitas, muitas cautelas... Experimentem levar dois filhos na “bagagem” duma aventura e logo veem se não duplicam as cautelas!!! Para ser sincero, só agora com o devido distanciamento percebo que não é só a necessidade que aguça o engenho. A responsabilidade também!!!

Refletindo um pouco... Penso que nunca tinha escrito tanta letra sobre corrida…

A maratona em si foi o reflexo da preparação, muitos cuidados de princípio ao fim. Beneficiando de um percurso com poucos desníveis e temperatura ideal para correr. Como já vem sendo hábito, fiz a primeira meia maratona sem olhar para o relógio, só por sensações. No meio da prova temos o pórtico, somos obrigados a ter informação. A diferença das outras provas, foi que à passagem do km 21 negociei comigo que só voltaria a olhar ao relógio ao km 38. Aos 37 alterei o negócio para os 40, e aos 40 alterei para a reta da meta. 41 kms e 500 m sem consultar o tempo. Fiquei a 26 segundos do recorde pessoal, de Roma, ao nível da corrida. Mas tempo sem olhar ao relógio… Foi mesmo recorde… Mas muito!!!
Este hábito de não olhar para o relógio começou no Porto em 2016. Não tinha certezas da preparação, e decidi ir ao sabor do vento a primeira parte da maratona. Como correu bem (2:50)... Certezas era mesmo o que eu não tinha agora, portanto era utilizar a mesma estratégia, só que aumentada. Fiz a primeira meia em 1:24:20, e a segunda em 1:24:15. Tudo isto às escuras...Nada mau ãããnnnhhh!!!
É capaz de ter os tais espectadores no estádio à minha espera possa ter tido alguma influência neste tempo. Disse ao Carlos minutos antes da maratona, que em princípio sairia 2:54. Sentia-me idêntico a Barcelona, muitas dúvidas… Por isso disse o tempo que fiz na prova Catalã. Vai na volta foram mesmo os espectadores do estádio Olímpico de Amsterdão que baralharam as contas!!! Quem é que sabe?



Agora é altura de desfrutar e descansar. Corrida mais a sério só em 2019. Barcelona 2018, 2:54, Helsínquia 2018, 2:55, Amsterdão 2018, 2:48. É capaz do desastre que foi a programação de 2017, ter tido efeito neste 2018. Muito cuidado e ponderação nas escolhas.

Escrevi isto tudo e não fui atropelado por um/uma “andador/a” de bicicleta… Ser peão em Amsterdão… Não é fácil!!! É ser peão, e tirar fotos em zona “I amsterdam”!

As cidades estão pejadas de turistas. Veja-se a nossa Lisboa e o nosso Porto. Não vou criticar, longe disso. Só acho que as cidades tem que por a mão por dentro da boca, agarrarem nos intestinos e virarem-se do avesso. Se esta esta imagem  é  muito agressiva, eu dou um nome mais simples… Reinvenção!!! Se não for o foco principal das grandes cidades, dentro de pouco tempo, não vai ser turismo. Vai ser safari urbano… Vai ser?!...

Amsterdão,  na sua essência tem o “estilo” nórdico, mas com muito mais  influência latina do que Helsínquia.  Gostei muito da cidade… Entretanto ainda não fui atropelado por uma bicicleta… Só o aspeto da má gestão de alguns espaços. À cabeça a anarquia que reina nos passeios/ciclo pistas.  Mas também sei que é muito mais fácil falar do que fazer. Por isso estão mais que desculpados. Fomos muito bem tratados em todo o lado, em relação ao trato, nada a apontar.

A brincadeira de ainda não ter sido atropelado, é  mesmo a sério. Há bicicletas a andar por todo o lado. Mas desenganem-se os que pensam que eles gostam de andar de bicicleta. O povo holandês gosta mais de correr como hobby, do que ciclismo. A questão das bicicletas é uma questão de mobilidade e poupança. Imaginem a facilidade de deslocação e estacionamento dentro duma cidade a muito baixo custo, quando comparado com um carro… Não tem nada a ver. Ainda por cima não há desníveis, é sempre a andar. Aquela rapaziada em cima duma bicicleta, tornam-se nuns selvagens, tal como nós fazemos cá  dentro dum carro. Achamos que somos os maiores...

Como é óbvio isto são constatações depois de sentir o pulso da população. É uma disciplina que temos na Universidade dos Pernetas, no primeiro ano de curso. “O pulso conta". Porque é que acham que os Trilhos dos Pernetas são um sucesso? Nós estudamos a sociedade… (Nã, não estudamos!!!).

Voltando ao “I amsterdam”. São letras com dois metros de altura, que estão na chegada a Amsterdão , no aeroporto Schiphol,  e na frente do maior museu da Holanda, o Rijksmuseum. Excecionalmente, tinham na chegada da maratona, perto do estádio Olímpico. Agora a arte não é tirar uma foto, é tirar uma foto sem muitas pessoas… No Rijksmuseum, então é melhor nem imaginar essa possibilidade.
Parecem árvores na selva cheias de macacos, e macacas (risos), nada de diferença de género…

Quem não tem cão, caça com gato. Eu teimei que tinha que tirar uma foto perto das letras sem ninguém… E consegui. Só que foi em Lagoa!!! Então?! O que é que Amsterdão tem que Lagoa não tem?!?!
Eles tem o Rijksmuseum, nós temos o auditório Carlos do Carmo… Vá Lagoa não tem o museu Van Gogh, a Heineken Experience, a casa onde Anne Frank escreveu o diário, escondida dos nazis, os canais, lojas públicas onde se vendem substâncias que potenciam o riso, distritos com linhas vermelhas (que tradução!!!). Vá… pode haver uma diferença ou outra.
Mas eles também não tem as grutas de Benagil!!! Tomem lá ...Seus “andadores" de bicicleta sem regras!!!

17:40 da tarde, Domingo dia 21 de Outubro, dentro do avião, no aeroporto de Schiphol. Após três dias em Amsterdão. Qual a pergunta da minha filha? Pai, achas que ainda dá para andar no “Kanguru" da Feira de Castro? Mas a sério Bárbara!!! Só por esta pergunta, tenho que me insurgir… Mas que raio de ideia é essa de marcarem corridas no fim de semana da Feira de Castro? Não faz sentido nenhum... Há três anos que não faço, a já secular meia maratona, Almodôvar/Feira de Castro, por causa de certas e determinadas provas. Está mal. Uma meia maratona  que está há tempos à espera da  sua segunda edição…

Pois claro que ainda demos uma volta de “Kanguru”, na feira de Castro. Nem a rapariga descansava como deve ser se assim não fosse!

Tenho confidenciado em alguns sítios que tão breve não voltaria a correr em Portugal, maratonas, entenda-se. Já sou repetente em Lisboa e Porto, por isso não estava no horizonte voltar a correr em território nacional. Mas tenho que voltar com a palavra atrás… Valores mais altos se levantam... Já tenho nova aventura marcada, e logo no distrito que me viu nascer, Faro.

Marrakesh ainda é Algarve, não é?

Boas corridas.